SilênciO

Emudeço diante da lonjura de alcance em que teus pensamentos se afastam dos meus. O amor me rouba as falas ensaiadas, as músicas previstas, me rouba a sanidade, a coerência e a verdade. O amor é o carro-chefe da vida humana... mas alguns ainda insistem em fazer dele tapete para se deitar, insistem em fazer dele local de repouso certo, Porto fixo e imutável. Ele não se prende. Ele quer correr, andar, brincar e gritar em silêncio. Ele não precisa de voz externa. Ele fala através do corpo onde é templo. O amor gosta de cheirar rosas e beber água em nascentes. Ele é inventado. Uma pintura! Um oásis, ilusão. O amor nos rouba as chaves do carro e também as do coração. Eu confesso ser desconhecedora de tal dádiva. Toda vez em que eu me arrisco a tocá-lo ele foge em seu cavalo dourado com armaduras transparentes. Mas não... eu não aprendo nunca! Preciso deixar ele vir falar comigo, preciso fazer com que ele sinta minha falta... eu não preciso fazer nada! Ele viaja, viaja... o mundo é realmente encantador! Como pudera eu acreditar que ele acampasse comigo? Eu sinto o cheiro de romance nele. Mas tudo o que posso oferecer agora é uma comédia com ares desencantados. Eu vou subir... essa montanha. Vejo um príncipe e vejo princesas, sapos e orquestras. Vejo luz e vejo nada. Vejo você caminhando na ponte, mas minhas pernas se entrelaçaram nos arbustos de uma pedra pesada, que eu mesma criei. Você tá indo... olha pra trás e sorri às vezes. Eu sinto seu perfume e seus jeitos em roupagens que não existem. Você flutua e alça vôos para uma nova viagem. Não sei se volta, se parte, se fala... em silêncio! Ah, o amor... é tirano e divino. É eterno e efêmero. É silêncio e grito! Mas eu...
Emudeço e fico sentada na eterna calçada esperando que algum turista deseje fazer excursão no meu mundo ímpar e de um colorido nebuloso.